Há mais de três décadas, o SXSW (South by Southwest) é um dos eventos mais esperados pelos profissionais de comunicação e marketing. O encontro, que acontece todos os anos em Austin, no Texas (EUA), é responsável por antecipar tendências de mercado e já foi palco para o lançamento de importantes inovações, como o Twitter (2007), o FourSquare (2009) e o Waymo, carro autônomo do Google (2016).

Na edição deste ano, uma diferença chamou a atenção. A maioria dos debates – de privacidade de dados até inteligência artificial – não esteve tão focada na tecnologia pura e simples. As discussões foram mais aprofundadas, analisando o impacto social desses sistemas e ferramentas e seus efeitos nas relações humanas.

Batendo recorde de brasileiros inscritos neste ano – foram cerca de 1.500 –, o evento encerrou mais uma edição no domingo, 17 de março. Acompanhando as apresentações, o time da NewBlue separou alguns dos principais destaques do encontro. Confira!

Era das emoções humanas

Em um mundo cada vez mais automatizado e tecnológico, o grande desafio da próxima década serão os seres humanos. Durante o SXSW, diversos painéis reforçaram que agora não é a hora de desenvolver novas tecnologias, mas sim de se adaptar as já existentes. “Estamos desesperados buscando humanização, enquanto construímos uma sociedade cada vez mais desumanizada”, afirmou Esther Perel, psicoterapeuta belga, estrela do palco principal no primeiro dia de evento.

Em outro painel, a discussão envolveu os riscos do uso da inteligência artificial. Na comunicação e no marketing, o alerta é para não deixar que a AI e a automação desconstruam a criatividade, a fim de atender uma personalização em escala.

Marketing de Influência: a geração Kardashian

Até 2020, a geração Z (pessoas nascidas entre 1995 e 2010) vai representar 40% dos consumidores. E esses jovens têm uma maneira bem distinta de consumir conteúdo e publicidade. Eles são fãs dos influenciadores digitais e confiam mais na opinião dessas pessoas do que em anúncios e conteúdos gerados pelas próprias marcas.

Antes de sair investindo em influenciadores com números na casa dos seis dígitos, é preciso analisar a autenticidade desses dados e a relevância dessas pessoas junto ao público-alvo. Durante o painel “Influencer Marketing in 2025: The Future of Human Media”, os palestrantes Ryan Berger (Hypr), Sarah Flynn (Thirty Five Ventures), Gabriel Miller (IBM iX) e Courtney Spritzer (Socialfly), apontaram a necessidade da criação de sistemas para rastrear e medir a efetividade das campanhas. Além disso, pontuaram que, em breve, os grandes perfis vão perder ainda mais espaço para uma rede de micro influenciadores que traz maior autenticidade e engajamento.

Interação por voz e a ascensão do áudio

Um dos principais gurus da tecnologia moderna, Neil Patel, empreendedor britânico apontado pela Forbes como um dos 10 melhores profissionais de Marketing do mundo, teve uma das palestras mais concorridas durante o SXSW. No painel “The Future of Enterprise Marketing: It’s Not What You Think”, Patel abordou a evolução da interação dos usuários. Segundo ele, 50% das pesquisas na internet serão realizadas por comandos de voz até 2020.

O áudio também volta a ser a estrela do momento. Sebastian Tomich, gerente global de Propaganda e Marketing do The New York Times, afirmou que “a era de ouro do podcast é agora e as empresas devem compreender isso”. Segundo o executivo, os usuários querem consumir informação enquanto realizam outras atividades. Hoje, esses indivíduos não querem mais parar para assistir notícias ou adquirir um produto. Os lemas são praticidade e agilidade.

Marketing omnichannel: de olho nas conversões

Durante sua apresentação, Patel também abordou a importância do marketing omnichannel. Em vez de desenvolver vários canais de marketing separados, o omnichannel representa uma abordagem mais sistemática. O objetivo dessa estratégia é criar um sistema de comunicação unificado. Recursos online, redes sociais e apps mobiles funcionam em conjunto, tornando a interação dos usuários com as marcas mais tranquilas e duradouras. “O custo por aquisição (CPA) aumenta em 20% quando a empresa migra para o marketing omnichannel. Por isso, a conversão nos sites é mais importante que o número de visitas”, alerta o especialista.

Para conquistar essas conversões é preciso dar um passo atrás e trabalhar na construção de um relacionamento com os clientes em seus mais variados estágios da jornada de compras. Uma estratégia eficiente está diretamente ligada à inteligência de dados. As companhias têm informações em diversas áreas que, em conjunto, podem levar os resultados e a relação com seus clientes a diante.

Foco na geração de leads qualificados

Durante o painel “Reimagine Storytelling Through Tech and Experiences”, Raja Rajamannar, diretor de Marketing e Comunicações da MasterCard, disse que “as marcas precisam ser mais dinâmicas, mais flexíveis, mais envolventes e mais significativas”. Ou seja, precisam apostar mais em um conteúdo de relevância que se conecte com o público de várias formas.

A apresentação de Rajamannar vai ao encontro de outro ponto levantado por Neil Patel. O jovem especialista fez questão de frisar em seu painel a importância da geração de leads qualificados que começam, justamente, pelo conteúdo. Um dos canais mais indicados para aproximação e distribuição dessas mensagens é o e-mail marketing. Pelas contas de Patel, esse tipo de canal representa 19% de todos os leads de uma empresa e 28% daqueles qualificados para venda.

Marketing social

Com a consciência social ganhando cada vez mais espaço na mídia, o painel “How Brands Can Engage The Social Impact Generation” debateu como as marcas podem se engajar nessas discussões de maneira autêntica e transparente. Segundo dados apresentados pelos palestrantes Marcus Bird (Dos Toros Taqueria); Elena Hounsel (Brandless); Viveka Hulyakar (BEAM Impact Inc.); e Jessica Santana (New York On Tech) esse será o caminho para conquistar e engajar os consumidores das gerações Y e Z.

“Os jovens buscam empresas que verdadeiramente coloquem seus valores frente às transações monetárias. O relacionamento com as marcas depende da prática consistente do bem”, enfatiza Viveka. De acordo com a especialista, ações de impacto social trazem um enorme retorno em vendas e lucro, de até 15% por trimestre. Mas as companhias precisam realmente viver, sentir e respirar as ações que promovem, exalando suas crenças e não simplesmente contando histórias sobre o que fazem.

Dados e Privacidade

Assim como no ano passado, os temas tiveram grande importância em diversos painéis do evento, principalmente naqueles direcionados ao debate da Inteligência Artificial e sua evolução. Todos os novos serviços tecnológicos apresentados na SXSW apostam nessas informações e no valor que elas podem agregar às marcas. Ao mesmo tempo, essas ferramentas buscam maneiras de implantar e garantir a data protection, evitando o vazamento dos cadastros dos usuários.

Em muitos debates apareceu a questão da responsabilidade de todos os envolvidos nos processos criativos e na implementação de novas ideias no mercado. A mensagem era sempre a mesma: buscar uma maneira segura e coerente de utilizar os dados. Dentro desse contexto, estão inseridas todas as áreas do marketing digital, incluindo o design, que passa a ter um papel ainda mais importante na construção e definição de sistemas e aplicações.

Workplace

As mudanças no ambiente corporativo seguem como ponto-chave do evento. O avanço da robótica, da automação e da inteligência artificial fez surgir novas profissões, aumentando a conectividade e globalização. Com isso, a maioria dos postos de trabalho está sendo reformulada, adotando modelos mais flexíveis de emprego. A chamada gig economy, baseada em trabalhadores temporários e sem vínculo empregatício, está em ascensão. Os profissionais perderam o medo e, agora, preferem trocar o fluxo de renda fixo por um irregular. Até mesmo carreiras tradicionais irão passar por um aumento da flexibilidade.

Blockchain: aumento da transparência

De acordo com a Federação Mundial de Anunciantes (WFA), as empresas terão perdas de US$ 50 bilhões na compra de mídia até 2025. Buscando minimizar as fraudes no processo de aquisição de anúncios grandes companhias se uniram para desenvolver uma rede de publicidade com blockchain. Unilever, Kimberly-Clark, Pfizer, Kellogg, IBM e Mediaocean estão juntas a fim de melhorar a transparência dessas transações.